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7/11/2011

Matéria jornal Hora de sc 09 e 10/7

HORA DE SANTA CATARINA


Famílias se unem para construir hospital pediátrico do câncer, em São José, na Grande Florianópolis.
Pais de crianças que tiveram a doença tomaram a iniciativa e formaram uma associação

Sâmia Frantz
samia.frantz@horasc.com.br

Até aonde pode ir a fé? Para os pais de crianças que sofrem, sofreram ou perderam a vida por causa do câncer, a fé pode ir muito além da dor. Prova disto é a confiança inabalável de cinco famílias que decidiram construir um hospital, partindo do próprio esforço, em São José, na Grande Florianópolis.

A doença era a mesma, mas o destino de Maycon, Lucas e Renan não seria. Ainda na infância, os três foram diagnosticados com câncer e, enquanto lutavam contra ele, buscavam tratamento em outros estados. Foi cansativo, difícil e sofrido. Mas, da dificuldade dos três está nascendo a possibilidade de cura para centenas de outros pequenos catarinenses.

Em meio ao sofrimento vivenciado pelos meninos, os pais perceberam que era hora de mudar. E assim, há cerca de oito anos, surgiu a ideia de um hospital do câncer pediátrico em Santa Catarina.

Cinco famílias, desesperadas em meio à dor do tratamento, imaginaram a construção de um local que resolvesse os problemas dos pacientes sem sair de Santa Catarina.

É preciso aprender com a doença

Nem todos tiveram o final feliz de Maycon, que se curou. Lucas também sobreviveu, mas perdeu a mão direita. Renan não resistiu e morreu, há sete anos.

— Quando se detecta uma doença assim em uma criança, você quer o melhor para o seu filho. A gente estava em meio ao tratamento e sentia a necessidade de algo mais. Quem não vive, não sabe — conta o comerciante Ademir Jorge Silveira, 61 anos, pai de Maycon.

Em aprovação

O complexo hospitalar, que inclui uma casa de apoio para abrigar famílias de outras cidades, deve se tornar o primeiro centro de referência em Santa Catarina, com todo o tratamento em um único lugar — hoje, se precisar de transplante, a criança é transferida a outro Estado.

Os prédios serão erguidos no Loteamento Ana Clara, no Bairro Areias, em São José, em terrenos doados pela prefeitura — mas o projeto de lei tem de ser votado pelos vereadores.


Do câncer à morte

Quando o hospital oncológico pediátrico ficar pronto, Renan de Melo não estará ao lado de Maycon e Lucas para ver o resultado. Mas o pai dele, o corretor de seguros Paulo Sérgio Melo, 48 anos, poderá respirar aliviado: quem sabe, isso possa amenizar a sensação de impotência que ele carrega consigo.

Depois do câncer nos ossos, Renan morreu em 2003, quando tinha 13 anos. E mesmo oito anos depois, Paulo não esquece: tem, até hoje, uma insegurança de que não fez tudo o que podia para salvar o filho.

Ao longo do tratamento, Paulo tinha muitas dúvidas sem resposta. Então começou a pesquisar o assunto na internet e encontrou a informação que buscava fora de Santa Catarina. Em São Paulo, ouviu o que precisava e transferiu o filho. Mas não havia mais tempo.

— Por mais vontade que eu tivesse, não havia condições. Sem um hospital específico, o Estado não tem estrutura para receber pacientes assim. Não quero que outros pais carreguem essa culpa pelo resto da vida, como eu carrego — diz.


Já são 1,8 mil voluntários na causa

O primeiro passo foi criar uma associação para ser a mantenedora do hospital, que hoje é a Fundação Hospitalar Oncológica Pediátrica de Santa Catarina (FHOPSC), presidida por Ademir Silveira. O órgão tem até site na internet: http://www.fhopsc.org.br/.

E o que começou pequeno, com cinco famílias, hoje tem mais de 1,8 mil voluntários. A médica que costumava atendê-los no Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis, se uniu a eles. Especialista em oncologia pediátrica, Sahlua Miguel Volc hoje trabalha no Cepon e já foi empossada diretora técnica do futuro hospital.

A iniciativa é ousada. O projeto, do planejamento arquitetônico à construção e compra de equipamentos, requer R$ 25 milhões.

Bingos e bazares para arrecadação

Até então, a arrecadação dos recursos veio por meio de doações e eventos, como bingos e bazares.

Agora, o próximo passo é solicitar verba pela conta de luz e parceria de empresários. A intenção é começar a obra na metade do ano que vem. E, em até quatro anos, terminar.

O que vai oferecer

::: 1 ambulatório multidisciplinar, com médicos, dentistas, psicológicos e professores para crianças que precisarem se ausentar da escola em tratamento

::: Centro cirúrgico para transplante de medula óssea e UTI

::: Quimioterapia ambulatorial

::: De 30 a 50 leitos

::: Laboratório

::: Centro de estudos em genética do câncer

::: Setor de diagnóstico por imagem

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